Rua das Três Margaridas
17 de fevereiro de 2023
Querido Diário,
Sempre que não escrevo, trago-te na gavetinha onde guardo o Vento. Antes que prossiga nas palavras, devo pedir-te desculpa….
Sei que estás menos aconchegado com uma companhia tão refrescante, que nos deixa muitas vezes constipados!
Uma menina chamada Leonor recebeu-me de presente de aniversário. Depois, partiu sem querer a corda da caixa de música que me faz dançar.
Sem a ajuda do Vento, não rodopiava mais! Assim, sempre que sai da gavetinha, eu consigo fazer o que uma Bailarina deve fazer, bailar….
Confesso-te que não é igual, dançar sozinha ao som da música ou sempre que o Vento sopra, mas não posso mostrar à criança os meus receios, bem pelo contrário, devo transmitir-lhe serenidade e confiança de que conseguiremos consertar-me e que as emoções negativas são para sentirmos, porém aceitarmos e controlarmos.
Mesmo sendo um brinquedo danificado, sem liberdade, creio ter conquistado finalmente a sua amizade.
Chegamos há pouco à loja de antiguidades e de restauro na Rua das Três Margaridas, onde reencontrei muitas bailarinas da minha família. Que grande alegria!
Foi o avô da Leonor que nos trouxe, depois de a ter obrigado a vestir o casaquinho, não fora constipar-se com a brisa do Vento.
É uma menina muito teimosa, raramente faz à primeira o que lhe é pedido. Custa-me não intervir nesses momentos para convencê-la… No entanto, não quero que o avô perceba que eu falo. Devo manter a minha interação com a neta em absoluto sigilo.
Vejo-o agora a conversar com o antiquário. Estou esperançosa que encontrem uma solução para a minha avaria. Tem uma voz muito grave, a menina nem sequer o encara com medo.
Aqui dentro há um ambiente mágico e misterioso! Talvez pela perceção do tempo que consumiu os objetos: a Rua das Três Margaridas em miniatura, as bonecas de porcelana, os carrinhos, os bibelots, as grafonolas, as guitarras de madeira, os espelhos, as luzes…
Leonor mexe em tudo: na máquina de escrever que se encontra na antiga escrivaninha, nos jornais passados, nos livros que outrora alguém conheceu como lugares seguros e pensantes, nas outras Bailarinas.
Esquecer-se-á que eu sou a mais especial, a Prima Bailarina?
Se tal acontecer, estarei perdida para sempre, desarranjada para sempre….
Nem é justo que mantenha o Vento preso numa gavetinha por muito mais tempo.
Bem, agora sentou-se num toucador, pegando num espelho pequenino. Tal como eu, é bastante vaidosa, gosta de pentear o cabelo e enfeitá-lo com miosótis. A coroa de flores que trago na cabeça é belíssima! Não…. Partiu-o! Que aborrecimento!
À repreensão do dono do estabelecimento e do avô, a menina, que não gosta de ser contrariada, começou a chorar.
Tenho de ir, meu querido diário, devo embalá-la ao som da música e dos delicados movimentos de dança com a ajuda do Vento.
Desejo que adormeça como uma princesa no dossel para que regresse a paz a este Reino encantado na Rua das Três Margaridas.
Arranjarei depois um casaquinho para ti também, na falta de chave.
Não penso somente no frio que tens passado na gavetinha….
Devo ainda escrever para terminar!
Ao embrulhar-te, protejo igualmente de olhos alheios todos os meus segredos.
Beijinhos da tua Prima Bailarina.