Louredo da Serra,
15 de Novembro de 2020

Glória:
Encontro-te no regresso a casa,
é a noite escura ausente de sonhos
e pesadelos, circunscrita a nada.
Nada é uma palavra que se come
de uma garfada,
chega a hora certa e tu és nada,
o teu corpo deita-se na morte
em que te tornas,
num caixão que apodrece
da glória que eras.
Comem-na também de uma garfada
as larvas, Deus queira que te tornes
borboleta!

Rabisco neste caderno desenhos e palavras que, da aparência, surgiram de lado nenhum, nunca escreverei nada como tu, sei bem. Guardei-as, no pensamento, a meio da noite fria, para a manhã, igualmente fria e feia, feiíssima. Encontrei-me, também a meio da noite, não sei se era ou não feia como a manhã, com uma temperatura demasiado quente para a quase totalidade do corpo, enrolada num denso charuto: um simples cobertor de penas. Lembro-me das dores cortantes nas veias e nos ossos, álgida no âmago do peito, nas reentrâncias do pescoço, que nunca chegaram a aquecer, mesmo cobertas até às pontas do cabelo emaranhado. Lembro-me de sentir uma angústia que retirava o ar dos pulmões e então… sonhei que encostava os meus pés aos da minha mãe, que os embalava para me adormecer profundamente; sonhei que, absorta, sozinha numa sala, olhava para a exposição das mais belas e mais grotescas obras de arte, tantas crianças indefesas a desdenharem a minha existência; sonhei que contemplava uma galeria de rostos mortos, outrora pujantes e ilustres, algumas vezes, talvez muitas, vaidosos; sonhei que, por fim, era guiada a um cemitério por um carro fúnebre, de vista impedida pela névoa do rio, mas de caminhos facilitados pelas ausências tranquilizadoras, quer de ruídos, quer de quaisquer odores a camélias, para enterrar um corpo que parecia ser o meu.
Ainda antes de sentar-me nesta incómoda cadeira, lembro-me também de pensar que, neste ano de dor, desapareciam, para sempre, muitos dos risos, dos gritos e das lágrimas das casas, ficando apenas os tais quadros de imagens mortas e as histórias misteriosas que surgiriam das dádivas de outros homens, que ainda restavam para preservar a memória e a glória de outros tempos.
Surgem então, agora ainda mais arrepiantes, dores musculares e zumbidos nos ouvidos, assemelhados aos do apito de um navio ancorado. A massa que causa estranheza na garganta persiste em atormentar-me até que decido, vou, deixo este incómodo, mas salutar estranheza de vida, para um banho, que aquece a nua pele tísica e depura a alma, demasiadas vezes morta.

Outubrina Afonso