Louredo da Serra,
9 de janeiro de 2022
Crio nada, a não ser resistência à investigação, com uma secura apenas explicável pela ausência de talento ou iluminação. Achava-me livre, mas nada disso eu sou, com medos que paralisam a ação, dúvidas que tornam o pensamento pouco líquido, turvo como as águas repletas de algas marinhas. Os sons noturnos, os que movem portas e janelas aos fantasmas, obrigam-me a esconder as páginas deste diário debaixo dos lençóis, pareço mais protegida pela fina membrana branca, mas estou tão indefesa, uma boneca de porcelana assombrosa, que se embaraçou nas rendas dos vestidos, dissuasores e intimidantes de ideias. Como podem aparecer as palavras certas na escuridão onde me encontro, horas somadas atrás das horas? Nada é nada. Tudo continua a ser nada, pois nada satisfaz o que de mim espero, vitórias são depois derrotas, insatisfeita com tudo o que desejei. Desfazem-se, sem música, beleza ou significado algum. Leves folhas de outono, que não se alimentam mais das árvores e caem em lugares pouco desejados, nos esgotos, nos pés de quem as calca propositadamente, desfazendo-as em pedaços, como quem usa os homens para atingir certas e determinadas finalidades, esquecendo-se que também no chão ficarão a grande parte das vezes e no fim, no banquete da morte onde abundam os microrganismos da terra. Queria para mim outros homens, outros sonhos ou outros sonhos para os homens, mas agora nem lhes sabemos o sítio certo, de nenhum dos sonhos. Estão em fendas espaciais, que brilham sem que lhes possamos tocar. Talvez sobreviva, sobrevivamos, sem jamais passarmos do denso e misterioso nevoeiro para a paisagem soalheira, completa, numa certa e esmagadora apatia coletiva, que não sente ninguém, que nada quer saber a não ser mostrar o que não é, quando somos, na realidade, uns pobres seres incultos e superficiais.
Outubrina Afonso