Louredo da Serra,
19 de março de 2020

Sinto os dias como se fossem noites que não acordam, sem palavras que aqueçam o sol, nada de nuvens, nada de sons alegres dos pássaros e dos vigorosos aviões, nada de risos inofensivos das crianças e dos toques das buzinas dos automóveis, nada de esperança que resplandece, nem num sopro resplandece. Fico pensativa e taciturna, qual esperança? Eu e todos os outros talvez possamos apenas respirar a materialidade da janela, perdidos, orando às estrelas noturnas, se é que as conseguimos ver, para errarmos um pouco menos. Somos fingidos, desleais uns com os outros, puros narcisos. Mortais ardilosos, execráveis e invejosos, por vezes. Nem mesmo este ano tão doloroso, encontramos mais compreensão ou tolerância, impera a desumanização – uma rainha cruel que nos governa a todos, que não permite, em liberdade, escolhermos o conhecimento e a bondade. É certo que, perante as adversidades, há laivos de felicidade e de amor, que jamais conseguiremos atingir em pleno, porém, podem ser entendidos, quando não são mesmo, por sede de protagonismo e de poder, as mais odiosas palavras, as que nos consomem como uma fogueira que queima lentamente por dentro do corpo, matando-nos por fim a alma. Mudam-nos o corpo, que definha, sofre em silêncio, alterando-nos o carácter para uma matéria sem qualquer significado humano.
Sinto os trovões, rugidos viscerais inoperantes ao funcionamento do cérebro. Ouço depois a chuva, que chora, cada vez mais violenta, incompreendida e indesejada. E vejo o céu, não de um azul vibrante e esplêndido, mas de um pestilento e penitente cinzento mate.
Sinto na face as gotas de cera, que tocam o vidro, permanecendo densas sem se desprenderem. E, surpreendentemente, vejo o único elemento com cor em toda a paisagem.
Sinto o toque das flores amarelas, mas balançam tanto, por ordem do vento bravio, que lhes perco, de todas as vezes, o nome e, logo eu, que tanto gosto de as chamar. Fogem, num ápice, da pintura para a moldura e da moldura para lado nenhum, pesadas e pesarosas, perdendo-lhes então o rasto.
Sem força, mas querendo experimentar os sentidos, ganho a confiança que se escondera no quarto escuro da casa, onde os demónios o visitam com frequência, e retomo à história dos homens e das mulheres, ao património e à arte. Foi a vida que para mim escolhi, a de investigadora, e essa minha faceta consome as divagações mais inusitadas, a angústia e o desespero. Fico com a cultura, com tudo o que restou do passado. Prolongo a promessa do futuro, do meu, do nosso futuro frágil, a memória e a vida de quem já morreu. Viva a vida para além da morte!!! Viva!!

Outubrina Afonso