Louredo da Serra,
24 de maio de 2014
Cumpro uma missão importante, uma ordem interior exaustiva e responsável, sentindo-me culpada quando a interrompo, descansando. Devo perseguir o caminho inabalável, sem quaisquer vulnerabilidades, para um dia chegar ao lugar do sonho inatingível, sem nenhuma nota digna de reparo ou crítica. Tenho muito a demonstrar, aos outros e a mim mesma, como uma mulher pensadora, solitária, permanentemente insatisfeita. Sei bem que nem sempre sou perfeita, racionalmente equilibrada, dada a controlar a ira, a fúria, os sentimentos escondidos e incompreendidos, mas faço por merecer constante aprovação. Pareço saber sempre escolher o certo, o bem, o justo, o digno… então, como nada disso me deixa mais segura, somente tão perdida? No final, valerá a pena? Valerá a pena não viver, andando por aí como uma sobrevivente de um tiroteio, cujas balas raspam sem tocar o corpo ferido e o rosto que não se conhece? Para que serve escrever e investigar, investigar ou escrever? Aprecio assim tanto ou é a forma que tenho para nos tolerar, a mim e aos outros? Aprecio assim tanto ou é a forma que tenho para conhecer o desconhecimento que é viver? Como custa realmente saber viver, que depois, negligente, não vivo, apenas deambulo! Como compreendo agora os que mostram, com honestidade, que não sabem viver. Bravo!
Outubrina Afonso